domingo, 7 de outubro de 2012

Uma lição de humildade com Max Lucado

Uma lição de humildade com Max Lucado
Assim como em qualquer setor da sociedade, nós, evangélicos, também vivemos divisões culturais. Existem, por exemplo, aqueles que consomem todos os tipos de música do momento que tocam nas rádios gospel e aqueles que preferem cantores que estão distantes da vitrine pop. Na literatura não é diferente: existe o grupo de escritores e pastores que escrevem para as massas e aqueles que são considerados mais eruditos, consumidos por uma elite do pensamento. De um e de outro lado há preconceito. Gostaria de tomar Max Lucado como ponto de partida para minha reflexão.
Na área da música, há os que gostam dos chamados “corinhos de fogo” e dos cantores da moda e nem sabem quem são João Alexandre, Stenio Marcius e Gerson Borges. Do outro lado, estão os que apreciam o estilo mais poético e MPB destes não suportam artistas populares como Diante do Trono, Cassiane e Régis Danese. Sem entrar pelos méritos de cada um (pois, evidentemente, tenho minhas preferências), fato é que esse fenômeno existe e é compreensível, trata-se de uma segmentação cultural que atende a gostos, classes sociais e heranças denominacionais diferentes. No universo dos autores se dá o mesmo: há também quem procura profundidade, em autores como Alister McGrath, John Piper, Franklin Ferreira e Augustus Nicodemus, e os que se satisfazem com textos bem menos exigentes, como os de Silas Malafaia, Joyce Meyer e… Max Lucado.
Lucado sofre muito preconceito. Os consumidores de uma teologia mais aprofundada o consideram água com açúcar, superficial, sem tônus teológico, praticamente um autor de autoajuda. Já traduzi dois de seus livros para a CPAD, “Isto não é para mim” e “Ele escolheu você”. Atualmente trabalho na edição de um terceiro, para outra editora, mas não posso revelar mais informações por um compromisso de confidencialidade. Esse trabalho tem me feito, então, mergulhar uma vez mais no universo do escritor.
Apesar de os mais eruditos fazerem careta ante a menção de seu nome, Lucado é extremamente bem-sucedido, autor de bestsellers e considerado fenomenal por multidões. O que não quer dizer nada, em princípio: Paulo Coelho é reverenciado internacionalmente e suas obras são de gosto duvidoso. Mas ao se ler despido de conceitos pré-concebidos o trabalho de Lucado fica fácil compreender por que ele é tão bem aceito: seus livros falam de questões práticas da vida das pessoas, são recheados de ilustrações, lidam devocionalmente com aspectos que tocam qualquer um e em tudo o que tratam conectam- se com a realidade da vida.
Contam “causos” e neles aplicam ensinamentos bíblicos. Além disso são sempre positivos, tratam de esperança, das coisas boas que Deus pode proporcionar e dão alento para quem está em crise ou dificuldade. E mais: são escritos numa linguagem que qualquer um consegue assimilar facilmente, o que abre as portas para cristãos que não possuem muito conhecimento teológico se deleitarem com seus escritos. Lucado faz muito bem feito algo que muitos querem – ou precisam – e essa é a fórmula de seu sucesso.
Dou a mão à palmatória: eu mesmo já tive muito preconceito com ele, pelas razões citadas acima: o homem é raso demais, eu pensava. Agora, trabalhando neste novo livro, preciso ter a humildade de dizer que estou mudando esse posicionamento. Pois a verdade é que, primeiro, o que Lucado escreve é bíblico, não consegui identificar em suas páginas heresias, teologias espúrias ou distorções da sã doutrina, algo que percebi em certas áreas do pensamento de muitos medalhões da erudição.
Talvez por não se preocupar em trazer novos insights ou sacadas geniais em seus livros, Lucado se atém a uma aplicação prática de uma teologia correta e simples. Seu objetivo não é trazer nada novo ou reinventar a roda: ele simplesmente trabalha em cima de aplicações para o que todos os setores do protestantismo já aceitam, como o amor de Deus, a importância da esperança, a dependência humana do Senhor e por aí vai.
Segundo, percebi que o que ele escreve de fato pode ser útil para muitos. Pode ajudar indivíduos que precisam simplesmente ser lembrados de verdades óbvias da nossa fé: Deus perdoa, precisamos estender a mão ao aflito, o amor do Senhor é gracioso e outras realidades que nos trazem alento e conforto. E, observando muitos dos autores mais respeitados, percebi que isso não é exclusividade de “escritores rasos”: os que debatem complexidades da fé muitas vezes adotam o mesmo estilo.
Os já citados McGrath e Piper são exemplos. O primeiro escreveu sua excelente “Teologia sistemática, histórica e filosófica” com um texto que, como ele mesmo afirma na introdução, é propositadamente de fácil assimilação por leigos. Piper também escreveu livros muito simples, como “O sorriso escondido de Deus” e “O legado da alegria soberana”, em que usa o exemplo de personagens da nossa história para falar sobre questões como o sofrimento do cristão fiel. Portanto, escrever de modo que as pessoas entendam e que, assim, tenha consequência em sua vida, não parece ser nenhum demérito.
E sobre a alegada superficialidade de Lucado? Nesse ponto, o parâmetro de comparação para minha reflexão foram as parábolas de Jesus. O Senhor lançou mão de ilustrações muito cotidianas para abordar questões relevantes para todos nós. Contou histórias simples para tratar de realidades profundas. E, por meio de suas histórias ficcionais trouxe ensinamentos muito úteis e edificantes para seus ouvintes. Percebi, então, que para desqualificar a abordagem de Lucado eu teria de desqualificar as parábolas de Cristo. Pois são estilos muito parecidos, guardadas as devidas proporções.
Nesse sentido, ao perceber esses fatos, me vi obrigado a reconsiderar minha posição. Talvez Lucado esteja fazendo um bem maior à vida devocional de seus leitores do que muitos dos eruditos. É totalmente evidente que não vou agora desqualificar cérebros pensantes como John Stott e John MacArthur, de cujos escritos tiramos verdades importantíssimas para nossas formação espiritual. O que mudou em mim não é isso. Não fui de “um lado” para “o outro”. Apenas estou enxergando com mais graça e tolerância autores e pensadores que não necessariamente são citados em notas de rodapé de obras acadêmicas. Pois agora enxergo que, como nos mostra 1 Coríntios 12, há espaço para todos, cada um com seu talento e sua missão.
Não posso querer que um irmão em início de sua caminhada de fé consiga compreender e amar Gordon Fee ou Walter C. Kaiser Jr. Ele precisa de leite espiritual. Com o tempo e a maturidade, vai consumir autores mais sólidos e de difícil digestão. Também entendo que uma pessoa com a alma em frangalhos não precisa naquele momento ler um tratado sobre angelologia ou pneumatologia, mas sim algo que o ajude a se pôr novamente de pé. Há hora para tudo. Há um livro para cada momento.
Naturalmente há certo tipo de literatura que simplesmente devemos desprezar. Obras que prometem aquilo que Deus não promete; livros como os de Kenneth Hagin, que pregam heresias como a Teologia da Prosperidade e a Confissão Positiva; bobagens que só servem para arrecadar dinheiro; pregações triunfalistas transformadas em texto. Há muito refugo espiritual nas livrarias evangélicas.
Mas eu não desprezaria os Max Lucado e Philip Yancey da vida. O fato de alguém ser simples não o desqualifica. O fato de seus livros não serem obras transformadoras da cristandade não quer dizer que não possam ser instrumentos de Deus para exortar, consolar e edificar. Alcançam corações e por isso são importantes. Aproximam pessoas de Deus e por isso são importantes. Edificam muitos que não conseguem compreender os eruditos e por isso são importantes. E me fizeram engolir minha soberba ao perceber que não é preciso fazer parte da inteligentzia para deixar legado, levar amor ao próximo e glorificar Deus – e por isso são muito importantes.
Se eu encontrasse Lucado hoje lhe pediria perdão por tê-lo desqualificado no passado. Ele tem contribuído para o Reino. E certamente tem abençoado biblicamente muito mais pessoas do que eu. Nesse sentido, preciso ter a humildade de reconhecer suas qualidades e tê-lo como um aliado e um irmão, deixando na gaveta a parte de minha intelectualidade que busca rebuscamento e vaidade. Pois a minha alma busca Deus. Se um livro de Max Lucado me aproximar do Senhor, o que tenho de fazer é tão somente agradecer. A esse homem e a Quem o ilumina naquilo que escreve.
Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

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