terça-feira, 30 de junho de 2015

Todo Dia Com Jesus

Romanos 4:1-12

Se uma escada é muito curta para alcançar um objeto colocado em local bastante alto, um homem que está um degrau acima não terá mais facilidade para alcançá-lo que outro que está um degrau abaixo. Lemos no capítulo anterior (3:22) que não há diferença: tanto gentios como judeus não alcançaram a glória de Deus. Ninguém tem acesso a ela pela escada da justiça própria, pois esta sempre será insuficiente. Uma prova disso é que mesmo Abraão (v. 3) e Davi (v. 6), que inquestionavelmente estariam no topo da escada das obras, não foram justificados por Deus pelas obras. E, se até mesmo eles não foram justificados, como nós o seríamos? Para demonstrar definitivamente que a salvação pela graça não tem nenhuma relação com as pretensões carnais nem com a "jactância" (3:27) do povo judeu, os versículos 9 e 10 recordam que o patriarca Abraão foi justificado pela fé antes do símbolo da circuncisão (Gênesis 15:6; 17:24). No momento em que Deus o justificou, ele estava na mesma posição dos pagãos.
Para ser salvo, o homem deve primeiramente reconhecer-se culpado, ou seja, deve concordar com a sentença divina mencionada no capítulo anterior. Deus justifica o ímpio e somente a ele (v. 5; Mateus 9:12).
NaoTenhaMedo
Primeiramente, por que estou fazendo esta pergunta? Três motivos:
1. Porque em nosso delicado e perigoso cenário de pluralismo religioso global, a maneira como falamos sobre nossas metas pode nos colocar para fora de um país ou coisa pior.
2. Porque nós queremos seguir o padrão de honestidade de Paulo: “Rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam, não andando com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus; antes, nos recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade” (2 Coríntios 4:2).
3. Porque nós precisamos de clareza bíblica sobre nosso papel na conversão de outras pessoas a Cristo, a fim de não rejeitarmos o alvo da conversão por motivos equivocados.
Vamos começar com uma definição.
A conversão cristã é o ato ou processo de ser mudado (sem coerção, mas através de nossa própria volição) em uma nova pessoa que crê e valoriza Jesus Cristo, sua obra salvadora, e suas promessas acima de tudo, incluindo tudo o que nós acreditávamos ou valorizávamos antes da conversão.
Dada a definição, minha resposta para a pergunta é: Sim, todos os cristãos deveriam almejar converter pessoas para a fé em Jesus Cristo. Este é um de nossos alvos em tudo o que dizemos e fazemos. Esperamos e oramos para que tudo o que dissermos e fizermos tenha este efeito. Em outras palavras, nosso alvo é não dizer coisas e fazer coisas que sejam ineficazes. Nós desejamos — nós esperamos, nós ansiamos, nós oramos — que o que nós dissermos e fizermos tenha este efeito: que pessoas valorizem Cristo acima de tudo. Não querer isso é ter incredulidade ou desamor.
Mas dizer que a conversão cristã é nosso alvo ainda não define qual é nosso papel em fazer a conversão acontecer. Isso é o que carece de explicação bíblica.
E aqui eu quero apenas trazer um esclarecimento: O fato de que Deus seja a causa última e decisiva na conversão não quer dizer que não somos agentes ativos na conversão. Nós somos. E, como agentes de Deus na conversão nós a visamos — escolhemos o que fazer e dizer, na esperança de que isso seja usado por Deus para realizar a conversão.
O fato de que Jesus disse, “ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido” (João 6:65), não significa que nós não sejamos instrumentos para trazer pessoas até Cristo. “O Espírito e a noiva [a Igreja] dizem: Vem! Aquele que ouve, diga: Vem!” (Apocalipse 22:17).
A Bíblia não sugere que porque Deus causa as pessoas a virem, não devemos dizer: “Vem.” Nosso objetivo e esforço são para que eles venham. E Deus é quem decide se eles vêm. Dizer que não estamos almejando que eles venham contradiz o mandamento de Jesus (Lucas 14:23), contradiz a instrumentalidade humana do Evangelho (Romanos 10:13-15), e contradiz o amor.
Considere outras cinco maneiras com que a Bíblia fala sobre nosso papel na conversão de outros.
1. Conversão cristã envolve pessoas espiritualmente cegas poderem ver a glória de Cristo. Embora seja Deus quem abra os olhos dos cegos espiritualmente (2 Coríntios 4:6), Jesus envia Paulo para abrir os olhos deles.
Livrando-te do povo e dos gentios, para os quais eu te envio, para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim. (Atos 26:17-18)
Se Paulo dissesse que seu objetivo não é abrir os olhos deles, seria desobediência à missão que Jesus lhe deu.
2. Conversão cristã envolve ganhar pessoas que valorizam qualquer coisa acima de Cristo para a plena devoção a Cristo. Embora Deus seja decisivo na mudança de afetos das pessoas (Jeremias 24:7), Paulo diz que seu objetivo é conquistar as pessoas.
Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. (1 Coríntios 9:22)
Se Paulo dissesse que seu objetivo não é ganhar pessoas para Cristo, estaria contrariando sua missão.
3. Conversão cristã envolve trazer as pessoas de volta do caminho do pecado e da destruição. Embora Deus seja quem decisivamente nos traz de volta a si mesmo (Jeremias 31:18, Isaías 57:18), a Bíblia fala de nós trazendo pessoas de volta do pecado e da morte.
Sabei que aquele que converte o pecador do seu caminho errado salvará da morte a alma dele e cobrirá multidão de pecados. (Tiago 5:20)
Dizer que não almejamos trazer as pessoas de volta do pecado e da morte nos colocaria fora de sintonia com este texto e implicaria que não nos preocupamos com a morte de incrédulos.
4. Conversão cristã envolve mover o coração em direção ao verdadeiro Deus, longe de ideias erradas sobre Deus e as afeições erradas para o que não é Deus. Embora Deus seja decisivo no mover do coração do homem para si mesmo (2 Tessalonicenses 3:5), João Batista foi comissionado para mover os corações de Israel a Deus.
“E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. E irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias, para converter o coração dos pais aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo preparado.” (Lucas 1:16-17)
Se João Batista dissesse que ele não almeja mover os corações do povo a Deus, ele seria desobediente ao seu chamado.
5. Conversão cristã envolve nascer de novo. Embora o Espírito de Deus seja a causa soberana do novo nascimento, soprando onde quer (João 3:8), mesmo assim, Pedro explica que isso acontece por meio da pregação do evangelho pelos seres humanos.
“Pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente… Ora, esta é a palavra que vos foi evangelizada.” (1 Pedro 1:23-25)
Se o pregador do evangelho dissesse que ele não está visando o novo nascimento em sua pregação, isso iria colocá-lo fora de sintonia com o Espírito e iria contradizer o projeto de Deus na forma como as pessoas nascem de novo.
Portanto, concluo que não é bíblico dizer que não estamos visando a conversão porque Deus é a causa final e decisiva da conversão. Ele é. Mas nós somos os seus agentes, e ele nos chama para acompanhá-lo neste objetivo. Não almejar isso é colocar-nos fora de sintonia com o seu comando e seu Espírito.
Pela causa de Deus e da verdade,
Pastor John
Por: John Piper. © 2009 Desiring God Foundation.. Original: Cristãos Deveriam Dizer Que o Objetivo Deles é Converter Outros à Fé em Cristo?.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Todo Dia Com Jesus

Romanos 3:19-31

Diante do tribunal de Deus, toda a boca está agora calada. Os acusados, sem exceção, são culpáveis (v. 19). "Todos pecaram e carecem da glória de Deus" (v. 23). A terrível sentença "Certamente morrerás", pronunciada por Deus antes da queda do homem (Gênesis 2:17), agora é confirmada: "Porque o salário do pecado é a morte" (cap. 6:23). Para o incrédulo, gentio ou judeu, o julgamento é definitivo, e o tribunal diante do qual ele comparecerá um dia é uma terrível realidade (Apocalipse 20:11-15). Porém, há um Advogado que intervém a favor daqueles que O elegem pela fé, tanto judeus como gentios. Ele não procura minimizar os pecados que eles têm cometido, como freqüentemente fazem os advogados nos tribunais humanos. Ao contrário, Ele assume a defesa e diz: "A sentença é justa, mas já foi executada ; a dívida está paga; uma morte - a minha própria morte - pagou o terrível preço pelos seus pecados".
Sim, a justiça de Deus foi satisfeita, pois um crime expiado não pode ser punido pela segunda vez. E se Deus é justo em condenar os pecados, Ele permanece igualmente justo ao eximir de culpa o pecador "que tem fé em Jesus" (v. 26).
OsDezMandamentos-NaoTeras
Há certos aspectos do nosso relacionamento com Deus que são descritos em termos inegavelmente jurídicos, enquanto outros são marcadamente pessoais. A nossa justificação é uma declaração jurídica de justiça no tribunal de Deus. A nossa adoção é a declaração jurídica de que somos de fato filhos de Deus e, assim, temos direito a todos os benefícios que pertencem aos seus filhos.
Fluindo desses benefícios, contudo, há aspectos do nosso relacionamento com Deus que são lindamente tenros e relacionais. Tal é a expressão do primeiro mandamento: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo 20.3). O preceito é estabelecido sobre o fundamento da aliança mosaica: “Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão” (v. 1-2). Essa declaração é o ponto de partida do pacto, pelo qual Deus revela quem ele é e o que fez pelo seu povo pactual. Desse indicativo fluem todos os imperativos dos Dez Mandamentos e, assim, Deus revela o qual o significa dele ser o nosso Deus e sermos o seu povo. Essa é a estrutura do pacto e a lente pela qual nós devemos entender a nossa obediência aos preceitos divinos.
A graça de Deus é o fundamento necessário da nossa obediência. Ele é o Deus que guarda a aliança e que fez promessas a Abraão, Isaque e Jacó, como o nome pactual SENHOR (Javé) significa. Ele é também o Deus criador que, sozinho, fez os céus e a terra, como o nome Deus significa. Em particular, ele é o Deus do êxodo, o Deus que não se esqueceu de suas promessas ao seu povo pactual. Na plenitude do tempo prometido a Abraão, ele voltou-se para o seu povo para executar toda a sua palavra redentiva e libertá-lo da escravidão física e espiritual. Ele fez isso por meio da obra do seu servo Moisés, o qual anunciou e mediou a palavra do Deus vivo a Israel, enquanto eles permaneciam tremendo ao pé do Monte Sinai, temendo a santidade daquele que tão graciosamente os havia resgatado.
É uma realidade assombrosa que Israel desfrutasse de um relacionamento tão mesclado com Deus. De um lado, Deus os tirou do Egito para que pudessem guardar os próprios preceitos que ele lhes deu, começando com o primeiro mandamento – não ter outros deuses diante de Javé. Ao mesmo tempo, a pecaminosidade dos seus corações era exposta pelos mandamentos que o Senhor lhes deu. Os preceitos demandavam não apenas uma obediência externa, mas também uma obediência do coração. Apenas Deus é digno do amor e da adoração deles. Nenhum outro deus os havia salvado; nenhum outro deus poderia sustentá-los; e com nenhum outro deus o Pastor de Israel dividiria a afeição e a lealdade deles.
O primeiro mandamento é frequentemente repetido no relacionamento pactual entre o Senhor e Israel. Deus frequentemente os lembrava de quem ele é, do que ele fez por eles e de que eles não deveriam permitir que falsos deuses se colocassem entre ele e o seu povo. Como Deus se descreve em Oséias, ele havia se casado com Israel e era um marido perfeitamente fiel à sua esposa; o que ele esperava dela era o amor e a fidelidade do coração, da alma e da força (Deuteronômio 6.5). Infelizmente, apenas afirmar e reafirmar as suas expectativas não despertou o amor e a fidelidade que Deus desejava de Israel. Com o tempo, o coração de Israel, espelhando o nosso próprio, ansiou por outros deuses e se apartou dos preceitos da aliança. Deus teria de fazer algo radical, algo invasivo, algo que o seu povo não poderia fazer por si mesmo, a fim de libertá-los e nos libertar da infidelidade dos nossos corações. Em síntese, outro êxodo precisaria ocorrer, trazendo uma superior salvação.
É por essa razão que o Evangelho de João descreve Jesus não apenas como o Deus de Israel em carne, mas também como um novo Moisés, o qual veio para efetuar uma melhor redenção. Assim como Deus foi adiante de Israel, também Jesus foi adiante de nós, todo o caminho até a cruz. Ele nos mostrou o que significava não ter “outro deus” diante do seu Pai nos céus, pois Jesus não apenas obedeceu a lei do Senhor, ele também amou o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, alma e força. O seu amor e lealdade para com o seu Pai celeste foram tão inconfundíveis quanto o seu amor e lealdade para conosco. O seu amor por seu Pai nos céus foi demonstrado no modo como ele amou aqueles que seu Pai amou e no modo como ele entregou a si mesmo como o sacrifício pelos nossos pecados.
Como diz o velho hino, nossos corações são “inclinados a se desviarem […] inclinados a abandonarem o Deus a quem amamos”. Dia após dia, precisamos ser lembrados do infalível amor de Deus por nós em Cristo. Também precisamos andar em novidade de vida, em amorosa obediência a Deus, dando-lhe a primazia em nossos corações. Nós somos a igreja de Cristo e, nele, fomos lavados, remidos e amados. Nós amamos e obedecemos seus preceitos porque, parafraseando outro hino, “dos céus ele desceu e nos buscou para fazer-nos sua noiva santa; com o seu próprio sangue ele nos comprou e por nossa vida ele morreu”.
Por: Eric Watkins. © 2015 Ministério Ligonier. Original: You Shall Have No Other Gods Before Me.
Este artigo faz parte da edição de junho de 2015 da revista Tabletalk.
Tradução: Vinícius Silva Pimentel. Revisão: Vinícius Musselman Pimentel. © 2014 Ministério Fiel. Todos os direitos reservados. Website: MinisterioFiel.com.br. Original: Não Terás Outros deuses Diante de Mim.

domingo, 28 de junho de 2015

Todo Dia Com Jesus

Romanos 3:1-18

Quem está certo? Deus, que condena - ou o acusado, que se defende? "Seja Deus verdadeiro, e mentiroso todo homem", diz o apóstolo (v. 4). A Palavra de Deus não é ineficaz só porque os judeus, seus depositários (v. 3; Hebreus 4:2), não creram nela. Inconseqüentemente, eles se vangloriavam de possuir a lei (cap. 2:17), sendo que a mesma lei testemunhava contra eles. É como um criminoso, gritando ser inocente, entregar à polícia a prova de seu crime, estabelecendo assim sua culpa. Por isso o Espírito de Deus, como promotor de um tribunal, faz ler diante do acusado judeu uma série de versículos irrefutáveis tirados de suas próprias Escrituras (vv. 10-18).
Mas outro argumento poderia sustentar o acusado: "Eu não nego minha injustiça, mas ela é útil, pois serve para enfatizar a justiça de Deus". Que atitude horrível! Se fosse assim, Deus teria de desistir de julgar o mundo (v. 6) e agradecer-lhe porque sua maldade ressalta a própria santidade divina. No entanto, Ele deixaria de ser justo e se negaria a Si mesmo (2 Timóteo 2:13). Diante do veredicto final, Deus acaba com os últimos argumentos, por trás dos quais Sua criatura sempre procura esconder-se.

sábado, 27 de junho de 2015

Todo Dia Com Jesus

Romanos 2:17-29

Os primeiros capítulos desta epístola nos fazem pensar em uma sessão de tribunal. Um após o outro, os elementos do mundo civilizado da época comparecem diante do supremo Juiz.
Depois da condenação do grego - ou seja, do bárbaro (cap. 1) - e do homem moral e civilizado (começo do capítulo 2), o judeu é chamado a ouvir sua sentença. Ele se apresenta de cabeça erguida. Seu nome judeu, a Lei em que se apóia, o verdadeiro Deus que ele diz conhecer e servir (v. 17), tudo parece demonstrar sua superioridade em relação aos outros acusados e absolvê-lo. Porém, o que lhe responde o supremo Magistrado? "Eu não te julgarei pelos teus títulos (v. 17), nem por teu conhecimento (v. 18), nem por tuas palavras (v. 21), mas sim por teus atos. Ao invés de desculpar-te, estes privilégios agravam tua culpabilidade."
O pecado dos pagãos é chamado de impiedade (cap. 1:18): eles avançam sem lei e sem freio segundo a sua própria vontade (1 João 3:4). O pecado dos judeus é chamado transgressão (v. 23), ou seja, é a desobediência aos divinos mandamentos conhecidos. E hoje, quão mais responsáveis são os cristãos, pois eles possuem toda a Palavra de Deus!
DiscipuladoEIgreja-NossoViver
Nosso viver está em morrer. Em Marcos 8.35, Jesus diz: “Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á”. Se queremos viver, devemos morrer. Esse conselho parece tolo num mundo que constantemente nos aconselha a “seguir os nossos corações” e a “aproveitar a vida”! Diz-se-nos que temos apenas uma vida e que devemos aproveitar cada momento à medida que escalamos até o topo da montanha.


Ao me tornar um cristão na universidade, logo me vi um pouco confuso. Não porque meus novos amigos cristãos costumassem relembrar desenhos animados com vegetais falantes de sua infância, ou tivessem símbolos de peixe em seus carros, ou se divertissem com jogos de tabuleiro nas noites de sexta, embora tudo aquilo causasse confusão. O que me causava perplexidade eram os paradoxos que pareciam inescapáveis para aqueles que seguiam a Cristo.
Ao estudar as Escrituras com outros cristãos, eu descobrir muitas verdades que eram ao mesmo tempo claras e obscuras. Aprendi que há um único Deus, o qual subsiste eternamente em três. Aprendi que Jesus é plenamente Deus e plenamente homem. Aprendi que Deus é completamente soberano e que as pessoas são responsáveis por suas ações. Essas idéias eram misteriosas, enigmáticas e, ao mesmo tempo, maravilhosamente edificantes.
Mas os paradoxos da vida cristã não terminam aí. Meditando nas Escrituras, eu vi que o crescimento e a maturidade cristã se dão de modos paradoxais. Se desejamos crescer como cristãos e ajudar outros a crescerem, é essencial compreender esses paradoxos.
Nosso viver está em morrer
Primeiro, nosso viver está em morrer. Em Marcos 8.35, Jesus diz: “Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á”. Se queremos viver, devemos morrer. Esse conselho parece tolo num mundo que constantemente nos aconselha a “seguir os nossos corações” e a “aproveitar a vida”! Diz-se-nos que temos apenas uma vida e que devemos aproveitar cada momento à medida que escalamos até o topo da montanha.
Ser um discípulo de Jesus, contudo, significa entregar as nossas vidas e abraçar a vida que Cristo dá. Esse é o único caminho para a vida verdadeira. Como diz Bonhoeffer, “quando Cristo chama um homem, ele o ordena a vir e morrer”. Essa morte acontece milhares de vezes antes do céu e é, sempre, um ato de fé em Jesus.
Anos atrás, eu fui enredado numa teia de pecado. Descontentamento, lascívia e falta de fé entraram sorrateiramente no meu coração, como uma serpente, e estavam lentamente destruindo minha devoção ao Senhor. Naquele período, um querido irmão falou de modo poderoso ao meu coração: ele me chamou a viver pelo morrer. Ele me mostrou que o meu amor pelo mundo estava sufocando meu amor por Cristo. Ele falou com verdade e com graça. Deus usou aquele irmão para abrir os meus olhos para a promessa da vida que viria apenas por meio da morte. Eu não tenho certeza de onde estaria se ele não houvesse me apresentado novamente o chamado de Jesus e sou eternamente grato de que ele o tenha feito.
No discipulado, nós devemos consistentemente segurar as lentes da eternidade diante dos olhos uns dos outros, a fim de assegurar que não estamos sendo “endurecido[s] pelo engano do pecado” (Hebreus 3.13). O mundo constantemente nos chama a encontrar vida em seus prazeres. O único antídoto para essas poderosas exigências é a meditação em como Cristo entregou a sua vida por nossa causa. Considere o quanto ele odiou o pecado. Pondere em como ele nos amou. Lembre-se de como ele padeceu. Pense em como ele morreu. Alegre-se em como ele glorificou o Pai.
O nosso discipulado deve ser marcado por como ajudamos uns aos outros a meditar no chamado de Cristo para tomarmos diariamente nossa cruz e o seguirmos. Morrer é o único caminho para viver.
Nosso descanso está no esforço
Segundo, nosso descanso está no esforço. Jesus consumou a obra, de modo que nós não devemos descansar até que a obra esteja completada. Hã?
Como eu posso me esforçar para “[guardar-me] no amor de Deus”, enquanto, ao mesmo tempo, descanso no fato de que Deus “é poderoso para [me] guardar de tropeços” (Judas 21, 24)? O que significa virmos a Jesus e recebermos “descanso para a [nossa] alma” (Mateus 11.29), enquanto, ao mesmo tempo, somos exortados a “[nos esforçarmos], pois, por entrar naquele descanso” (Hebreus 4.11)?
De todos os paradoxos do crescimento cristão, a ideia de esforçar-se e descansar ao mesmo tempo parece ser a mais enigmática. Devo eu trabalhar cada dia até desfalecer de exaustão, ou devo eu sentar-me no sofá e esperar que Jesus me conduza como uma marionete? Como eu “ajo” e “dependo” ao mesmo tempo? Como eu trabalho sem trabalhar na minha própria força? O que significa labutar com fervor pela graça que Deus supre?
Embora talvez seja enigmática, nós devemos abraçar essa tensão tal como ela se apresenta na Escritura (Deuteronômio 29.29; 1 Coríntios 15.10; Filipenses 2.12-13). Deus nos chama a descansarmos completamente na obra de Cristo (João 19.30; Hebreus 10; 1 Pedro 3.18) e, ao mesmo tempo, a trabalharmos duro (João 15.8; 1 Coríntios 9.24-27; Tiago 2.14-26). Filipenses 2.12-13 captura perfeitamente o paradoxo: “Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”.
É nesse paradoxo que nós vemos em que consiste a fé. Nós corremos, nós agimos, mas, quando paramos para considerar, descobrimos que o chão no qual estamos apoiados é o chão o qual Deus prometeu que estaria ali. Quando olhamos para trás, descobrimos que, sim, nós corremos, mas era Deus operando em nós. Nós descansamos na fidelidade de Deus em nos capacitar para que nos empenhemos na obediência.
Sendo assim, o que esse paradoxo significa para o nosso discipulado de outros cristãos? Ao gastar tempo com outros crentes, descansem em Cristo. Juntos, fitem a cruz. Juntos, contemplem o sepulcro vazio. Tragam à memória as promessas que enfatizam a nossa libertação do pecado e da condenação (p.ex., Romanos 6.1-4; 8.1). Orem por meio de versículos que falam do amor de Deus por nós em Cristo (Efésios 2.1-10; Romanos 8.32-39; 1 João 4.10). Lembrem uns aos outros de que Deus não mantém um “placar” nos céus. Ele não tem um botão de “delete” nos seu computador, para a próxima vez que você bagunçar as coisas. Entesourem o fato de que nós estamos agradando a Deus, porque ele se agrada de Cristo. Preguem o evangelho uns aos outros. Chamem uns aos outros a descansarem no brado de Cristo de que tudo “está consumado!”.
Nós também devemos descansar no fato de que o Cristo ressurreto intercede por nós nos céus (Hebreus 7.10). Essa intercessão nos garante que Deus será misericordioso para conosco em nossas iniqüidades e não mais se lembrará dos nossos pecados (Hebreus 8.1-12). Que maravilhosa verdade na qual descansar! Nós somos perdoados em Cristo. Deus não mantém as nossas transgressões contra nós. Nós descansamos na obra consumada de Cristo e na sua contínua obra em nosso favor.
Ao mesmo tempo, o nosso discipulado deve ser marcado por um esforço conjunto. Lembrem-se uns aos outros de que Jesus nos deu o “Ajudador”, o Espírito Santo, para nos capacitar a viver de maneira agradável a Deus (João 14.26; Romanos 8.4). Nós labutamos, mas não labutamos sozinhos. Somos unidos à presença do vitorioso Rei dos reis, por meio do seu Santo Espírito. Ele nos habilita a fazer discípulos entre as nações (Mateus 28.19-20) e a suportar perseguição à medida que avançamos (Lucas 12.11-12). Nós podemos suportar os sofrimentos desta vida na força do Senhor (2 Coríntios 12.9-10) e, então, confortar os outros em seus sofrimentos (2 Coríntios 1.3-7).
Então, esforcem-se juntos por viver como soldados de Cristo que estão em guerra contra o maligno (2 Timóteo 2.2; Efésios 6.10; 1 Pedro 5.8-9). Disciplinem a si mesmos e estruturem os seus hábitos a fim de crescerem em piedade (1 Timóteo 4.7). Usem intencionalmente as suas interações para estimularemuns aos outros no amor e nas boas obras (Hebreus 10.24-25). E, acima de tudo, ajudem uns aos outros a se desembaraçarem de tudo o que os atrapalha, a fim de que possam terminar a corrida e entrar naquele descanso final que nos foi prometido (Hebreus 12.1-3).
Os paradoxos do crescimento espiritual não nos foram dados para nos paralisar. Deus os deu a nós para que examinemos a sua Palavra mais atentamente e nos aprofundemos em suas promessas mais livremente. Então, encorajem uns aos outros a viverem por meio do morrer e a descansarem por meio do esforço.
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Garrett Kell
AutorGarrett Kell
Garret Kell é pastor sênior da Del Ray Baptist Church em Alexandria, Virginia.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

LeiaRomanosComCalvino2
Nesta nova série “Leia Romanos com Calvino”, postaremos os comentários do grande reformador de trechos selecionados de Romanos. Acesse o Sumário

Romanos 1.17-23

“(18) Porque a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens que substituem a verdade pela injustiça; (19) porque o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhos manifestou. (20) Pois, desde a criação do mundo, os atributos invisíveis de Deus – seu eterno poder e sua natureza divina – têm sido claramente vistos, sendo percebidos através das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis; (21) porque, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, mas seus pensamentos tornaram-se fúteis, e seus corações insensatos se obscureceram. (22) Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos, (23) e trocaram a glória do Deus incorruptível por imagens feitas segundo a semelhança do homem corruptível, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis.”
18. Porque a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens. O apóstolo apresenta agora um argumento com base numa comparação de opostos a fim de provar que a justiça só pode ser concedida ou conferida pela instrumentalidade do evangelho, pois ele demonstra que sem este todos [os homens] estão condenados. A salvação, pois, será encontrada unicamente no evangelho. A primeira prova confirmativa que ele adiciona consiste no fato de que, embora a estrutura do mundo e a mais esplêndida ordem dos elementos deveriam induzir o homem a glorificar a Deus, todavia não há nada que o desobrigue de seus deveres. Isto é prova de que todos os homens são culpados de sacrilégio e de ignóbil e iníqua ingratidão.
Há quem sugere que esta é a primeira proposição de Paulo, de modo a iniciar seu discurso com oarrependimento; sinto, porém, que aqui é onde Paulo começa seu tema polêmico, e que o tema central foi afirmado na cláusula precedente. Seu objetivo é instruir-nos sobre onde a salvação deve ser buscada. Ele garante que só podemos obtê-la por meio do evangelho, mas visto que a carne não se humilhará voluntariamente ao ponto de atribuir o louvor da salvação exclusivamente à graça divina, o apóstolo mostra que o mundo todo é culpado de morte eterna. Segue-se deste fato que devemos reaver a vida por algum outro meio, visto que, por nós mesmos, estamos todos perdidos. Um exame criterioso de cada palavra nos será de grande valia a fim de entendermos o significado da passagem.
Alguns intérpretes fazem distinção entre impiedade injustiça, sustentando que impiedade aponta para a profanação do culto divino, enquanto que injustiça aponta para a carência de justiça nos homens. Entretanto, visto que o apóstolo se refere a esta injustiça em imediata relação com a negligência da religião genuína, interpretaremos ambas como tendo o mesmo sentido. Toda impiedade humana deve ser considerada à luz da figura de linguagem chamada hipálage, significando a impiedade de todos os homens, ou a impiedade da qual todos os homens se acham convencidos. Uma coisa é designada através de duas expressões distintas, a saber: ingratidão em relação a Deus, visto que o injuriamos de duas formas. ̕Ασέβεια, impiedade, implica na desonra de Deus, enquanto que ἀδικία, injustiça, significa que o homem, ao transferir para si o que pertence a Deus, tem injustamente privado a Deus de sua devida honra. O termoira, referindo-se a Deus em termos humanos como é comum na Escritura, significa a vingança de Deus, pois quando ele pune, segundo nosso modo de pensar, ele aparenta estar irado. O termo, pois, revela não a atitude emocional de Deus, e, sim, as sensações do pecador que é punido. Paulo, pois, diz que a ira de Deus é revelada do céu, conquanto a expressão do céu é tomada por alguns como um adjetivo, como se ele dissesse: a ira do Deus celestial. Em minha opinião, contudo, é mais enfático dizer: “Para qualquer parte que o homem olhe, ele não encontrará salvação alguma, pois a ira de Deus é derramada sobre o mundo inteiro e permeia toda a extensão do céu.”
verdade de Deus significa o genuíno conhecimento de Deus, e substituir a verdade é suprimi-la ou obscurecê-la; daí serem eles acusados de latrocínio. Em injustiça é um hebraísmo, e significa injustamente[injuste], porém levamos em conta sua perspicuidade.
19. Porque o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles. Paulo assim designa qual a propriedade ou expediente para adquirirmos conhecimento acerca de Deus, e indica tudo o que se presta para anunciar a glória do Senhor, ou – o que é a mesma coisa – tudo quanto deve induzir-nos ou incitar-nos a glorificar a Deus. Isso subentende que não podemos compreender plenamente a Deus, em toda sua grandeza, mas que há certos limites dentro dos quais os homens devem manter-se, embora Deus acomode à nossa tacanha capacidade [ad modulum nostrum attemperat] toda declaração que ele faz de si próprio. Portanto, somente os estultos é que buscam conhecer a essência de Deus. O Espírito, o Preceptor da sabedoria plenária, não sem razão chama nossa atenção para o que pode ser conhecido, τό γνωστόν, e o apóstolo logo em seguida explicará como isso pode ser apreendido. A força da passagem é intensificada pela preposição in [in ipsis, em vez do simples ipsis]. Conquanto na fraseologia hebraica, a qual o apóstolo freqüentemente usa, a partícula in [em] é às vezes redundante, tudo indica que ele, nesta instância, pretendia indicar uma manifestação do caráter de Deus que é por demais forte para permitir que os homens dela escapem, visto que, indubitavelmente, cada um de nós a sente esculpida em seu próprio coração. Ao dizer: Deus lhos manifestou, sua intenção é que o homem foi criado para ser um espectador do mundo criado, e que ele foi dotado com olhos com o propósito de ser guiado por Deus mesmo, o Autor do mundo, para a contemplação de tão magnificente imagem.
20. Pois, desde a criação do mundo, os atributos invisíveis de Deus – seu eterno poder e sua natureza divina – têm sido claramente vistos. Deus, em si mesmo, é invisível, porém, uma vez que sua majestade resplandece em todas suas obras e em todas suas criaturas, os homens devem reconhecê-lo nelas, porquanto elas são uma viva demonstração de seu Criador. Por esta razão o apóstolo, em sua Epístola aos Hebreus, chama o mundo de espelho ou representação [specula seu spectacula] das coisas invisíveis [Hb 11.3]. Ele não apresenta detalhadamente todos os atributos que podem ser considerados pertencentes a Deus, porém nos diz como chegar ao conhecimento de seu eterno poder e divindade. Aquele que é o Autor de todas as coisas deve necessariamente ser sem princípio e incriado. Ao fazermos tal descoberta sobre Deus, sua divindade se descortina diante de nós, e esta divindade só existe quando acompanhada de todos os atributos divinos, visto que todos eles se acham incluídos nesta divindade.
Tais homens são indesculpáveis. Isso prova nitidamente o quanto os homens podem lucrar com a demonstração da existência de Deus, ou, seja: total incapacidade de apresentar qualquer defesa que os impeça de serem justamente acusados diante do tribunal divino. Devemos, pois, fazer a seguinte distinção: a manifestação de Deus, pela qual ele faz sua glória notória entre suas criaturas, é suficientemente clara até onde sua própria luz se manifesta. Entretanto, em razão de nossa cegueira, ela se torna inadequada. Porém não somos tão cegos que possamos alegar ignorância sem estar convictos de perversidade. Formamos uma concepção da divindade e então concluímos que estamos sob a necessidade de cultuar tal Ser, seja qual for seu caráter. Nosso juízo, contudo, fracassa aqui antes de descobrirmos a natureza ou caráter de Deus. Daí o apóstolo, em Hebreus 11.3, atribui à fé a luz por meio da qual uma pessoa pode obter real conhecimento da obra da criação. Ele tem boas razões para agir assim, pois somos, em virtude de nossa cegueira, impedidos de alcançar nosso alvo. E todavia vemos suficientemente bem para ficarmos totalmente sem justificativa. Ambas estas verdades são bem demonstradas pelo apóstolo em Atos 14.16-17, quando diz que o Senhor, em tempos passados, deixou as nações em sua ignorância, entretanto não as deixou sem testemunho (ἀμάρτυροι), visto que lhes deu do céu as chuvas e as estações frutíferas. Esse conhecimento de Deus, portanto, só serve para impedir que os homens se justifiquem, o qual difere grandemente do conhecimento que traz a salvação. Este último [conhecimento] é mencionado por Cristo, e Jeremias nos ensina a nos gloriarmos nele [Jo 17.3; Jr 9.24].
21. Tendo conhecimento de Deus. Ele claramente afirma, aqui, que Deus pôs o conhecimento de si mesmo nas mentes de todos os homens. Em outras palavras, Deus tem assim demonstrado sua existência por meio de suas obras a fim de levar os homens a verem o que não buscam conhecer de sua livre vontade, ou, seja, que existe Deus. O mundo não existe por meios fortuitos nem procedeu de si mesmo. Mas é preciso notar sempre qual o grau de conhecimento em que permaneceram, como veremos a seguir.
Não o glorificaram como Deus. Nenhuma concepção de Deus se pode formular sem que se inclua eternidade, poder, sabedoria, bondade, verdade, justiça e misericórdia. Sua eternidade se evidencia mediante o fato de que ele mantém todas as coisas em suas mãos e faz com que todas elas estejam em harmonia com ele. Sua sabedoria é percebida no fato de que ele dispôs todas as coisas em perfeita ordem. Sua bondade consiste em que não há nenhuma outra causa para que ele criasse todas as coisas, nem existe alguma outra razão que o induza a preservá-las, senão sua bondade. Sua justiça se evidencia no modo como ele governa o mundo, visto que pune os culpados e defende os inocentes. Sua misericórdiaconsiste em que ele suporta a perversidade dos homens com inusitada paciência. E sua verdade consiste no fato de que ele é imutável. Aqueles, pois, que pretendem formular alguma concepção de Deus, devem tributar-lhe o devido louvor por sua eternidade, sabedoria, bondade, justiça, misericórdia e verdade.
Visto que os homens têm deixado de reconhecer em Deus tais atributos, ao contrário o têm retratado imaginariamente como se fosse um fantasma sem substância, tem-se afirmado, com justiça, que eles o têm impiamente despido de sua glória. Não é sem razão que Paulo adicione que nem lhe deram graças, pois não existe ninguém que não esteja endividado para com a infinita munificência divina, e é somente por esta razão que ele nos põe na condição de eternos inadimplentes diante de sua condescendência em revelar-se a nós. Mas seus pensamentos tornaram-se fúteis, e seus corações insensatos se obscureceram, ou, seja: renunciaram a verdade de Deus e se volveram para a vaidade de seus próprios raciocínios, os quais são completamente indistinguíveis e sem permanência. Seu coração insensível, sendo assim entenebrecido, não pode entender nada corretamente, senão que se acha precipitado em erro e falsidade. Esta é a injustiça [da raça humana], ou, seja: que a semente do genuíno conhecimento foi imediatamente sufocada por sua impiedade antes que pudesse medrar e amadurecer.
22. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. Comumente se infere desta passagem que o apóstolo está fazendo alusão aos filósofos que adotavam exclusivamente para si a fama de sábios. A força de seu argumento é mantida para provar que, quando a superioridade dos grandes é reduzida a nada, o povo comum fica destituído de base para supor que os homens possuem algo digno de louvor. Os intérpretes que defendem este conceito não me convencem de que foram influenciados por um raciocínio suficientemente conclusivo, pois não era peculiar aos filósofos imaginarem que possuíam sabedoria no conhecimento de Deus, mas que tal sabedoria era igualmente comum a todas as nações e classes de homens. Todos os homens têm procurado formar alguma concepção da Majestade de Deus, e imaginá-lo um Deus tal qual sua razão pudesse concebê-lo. Tal pretensão em referência a Deus, afirmo eu, não se aprende nas escolas filosóficas, senão que é algo inato e nos acompanha, por assim dizer, desde o ventre materno. É evidente que este mal tem florescido em todos os tempos, de modo a permitirem os homens a si mesmos total liberdade de engendrar práticas supersticiosas. Portanto, a arrogância que aqui se condena consiste em que, quando os homens deviam humildemente dar glória a Deus, procuraram ser sábios a seus próprios olhos e reduziram Deus ao nível de sua própria condição miserável. Paulo mantém o seguinte princípio: se alguém se aliena do culto divino, a culpa é toda sua, como se quisesse dizer: “Visto que se exaltaram soberbamente, se converteram em loucos pela justiça vingadora de Deus.” Há também uma razão óbvia que milita contra a interpretação por mim rejeitada. O erro de formar uma imagem de Deus [de affingenda Deo imagine] não teve sua origem nos filósofos, mas foi recebido de outras fontes, recebendo também daí sua própria aprovação.
23. E trocaram a glória do Deus incorruptível. Uma vez tendo imaginado Deus segundo o discernimento de seus sentidos carnais, foi-lhes impossível reconhecer o Deus verdadeiro, porém inventaram um deus novo e fictício, ou, melhor, um fantasma mitológico. O que Paulo tem em mente é que trocaram a glória de Deus. Da mesma forma como alguém poderia substituir um filho por outro, eles se afastaram do verdadeiro Deus. Nem podem ser escusados sob o pretexto de que crêem, não obstante, que Deus habita o céu, e que não   consideram a madeira como sendo Deus, e, sim, como sendo sua imagem ou representação [pro simulacro], pois formar tão grosseira idéia de sua Majestade, ao ponto de fazer uma imagem dele, se constitui num terrível insulto dirigido a Deus. Nenhum deles pode isentar-se da blasfêmia de tal pretensão, quer sejam sacerdotes, governantes ou filósofos. Até mesmo Platão, o mais primoroso entre eles, em sabedoria, procurou delinear alguma forma de Deus [formam in Deo].
A total loucura para a qual voltamos a atenção aqui consiste em que todos os homens têm pretendido fazer para si próprios uma figura de Deus. Esta é uma sólida prova de que suas idéias acerca de Deus são grosseiras e irracionais. Em primeiro plano, eles têm maculado a Majestade divina ao concebê-la de conformidade com a semelhança de homem corruptível (prefiro esta tradução em vez de homem mortal, adotada por Erasmo), visto que Paulo confrontou não só a mortalidade humana com a imortalidade divina, mas   também a glória divina incorruptível com a própria condição deplorável do homem. Além do mais, não se sentindo satisfeitos com tão profunda ofensa, eles ainda desceram às mais vis bestialidades, tornando ainda mais concreta sua estupidez. O leitor poderá ver uma descrição dessas práticas abomináveis em Lactâncio, Eusébio e Agostinho, este último em sua Cidade de Deus.

Biblioteca João Calvino

A Biblioteca João Calvino é um projeto do Ministério Fiel, cujo propósito é abençoar a Igreja de fala portuguesa através da disponibilização gratuita para leitura dos comentários bíblicos do reformador francês, publicados pela Editora Fiel.
O Ministério Fiel também está disponibilizando a venda dos comentários bíblicos de Calvino em e-book, com preço simbólico, a fim de encorajar o leitor a montar sua própria biblioteca virtual.
Que Deus o abençoe em sua leitura! Que essa seja uma ferramenta edificante na sua vida.
Por: João Calvino. © 2014 Ministério Fiel. Original: Leia Romanos com Calvino: a ira de Deus se revela do céu (Rm 1.17-23).

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Todo Dia Com Jesus

Romanos 1:18-32

Antes de explicar como Deus justifica o pecador, é necessário convencer todos os seres humanos de que eles são pecadores.
Você pode pensar que os pagãos são desculpáveis, porque não têm a Palavra escrita. Mas eles têm diante de seus olhos outro livro sempre aberto: o da Criação (Salmo 19:1). Contudo, eles não reconheceram nem honraram seu Autor e nem quiseram dar-Lhe graças (um dever universal). Então eles foram entregues a Satanás para praticarem as piores abominações.
Esse não é um bonito retrato do homem natural, mas é o meu e o seu retrato! Deus declara culpáveis não somente os que praticam os pecados dos versículos 29 a 31, mas também os que "aprovam os que assim procedem". Ver programas que contem cenas imorais, más conversações etc., coloca-nos sob o mesmo "justo juízo de Deus" (v. 32; cap. 2:5; Salmo 50:18).

Fracos Modelos de Cristo

William MacDonald
Cada crente deve representar o Senhor Jesus aqui na Terra, devendo ser uma cópia do Salvador e mostrar Cristo ao mundo. Essa é uma tremenda responsabilidade.
Nós somos membros do corpo de Cristo. O corpo é o veículo através do qual uma pessoa se exprime. O corpo de Cristo, a Igreja, é o veículo pelo qual Ele deseja revelar-Se ao mundo.
Assim, uma questão é levantada a cada um de nós: “Que tipo de imagem de Cristo ofereço ao mundo?” E devemos perguntar a nós mesmos:
Se a única visão que têm de Cristo
É o que vêem dEle em ti,
Minha alma, o que vêem eles?
Deus tem um sobrenome. Ele foi chamado o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó.
Alguém explicou: Deus tem um sobrenome. Ele foi chamado o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Ele não se sentia envergonhado de ser o Deus destes homens (Hb 11.16b)Como é que Deus se sentiria se tivesse o meu nome como o Seu sobrenome?
Charles Swindoll disse:
Quer queiramos quer não, o mundo observa-nos com a atenção de uma gaivota que espreita um camarão em águas pouco profundas. O crente... está sob vigilância constante. Este é o nosso problema ocupacional número um. E quando falamos do nosso Salvador e da vida que Ele nos oferece, tudo o que dizemos é filtrado através daquilo que os outros observam em nós.

Ferido em casa dos seus amigos

O triste fato é que Cristo tem sofrido bastante devido às vidas daqueles que professam ser Seus discípulos. Ele tem sido ferido até na “casa dos Seus amigos.”
James Spink disse:
A causa do Cristianismo tem sido mais prejudicada pelo seus seguidores do que pelos seus oponentes, porque o mundo compara freqüentemente a profissão de fé de um cristão com a prática da mesma. Dizem, com uma certa razão, que se o Cristianismo é aquilo que nós defendemos ser, então as nossas vidas deveriam ser diferentes.
Hudson Taylor concordou:
A incongruência dos cristãos, que ao professarem que crêem na sua Bíblia mas se sentem felizes em viver como se tal Livro não existisse, tem sido um dos maiores argumentos para a discussão dos meus companheiros mais céticos.
Não é difícil encontrar ilustrações para a forma como o Senhor é freqüentemente tão mal representado. Recentemente, vi uma camionete com dois adesivos no pára-choque traseiro. Um dizia: “Eu amo Jesus”. No outro podia ler-se: “Se bates no meu carro, acabo contigo”. Aparentemente o dono do carro não podia ver a contradição gritante dos dois sentimentos.
Por exemplo, George Duncan conta a seguinte história do mundo dos negócios: Um negociante... tinha participado de um programa cristão de rádio na noite anterior, e uma das suas funcionárias o tinha ouvido. Na manhã seguinte, ele estava de muito mau humor, as coisas não estavam correndo bem, e a funcionária acabou sendo vítima do mau humor do patrão. Ao sair do escritório ela comentou com uma colega que entrava: “Está certo... Venham a Jesus no domingo à noite e vão para o Diabo na segunda-feira de manhã.”
Quando um homem de negócios cristão não cumpriu o que havia prometido, um concorrente perguntou-lhe: “A que igreja você pertence?” Ele respondeu: “A minha igreja não tem nada a ver com esse assunto. Isso é negócio”. Pode ter levado vinte anos dando um bom testemunho, mas destruiu-o em vinte segundos.
Quando um famoso ator ou atriz relata que “nasceu de novo”, a notícia é transmitida por todos os meios de comunicação disponíveis. Mas, da mesma forma, também são transmitidas as notícias de que ele, ou ela, não abandonaram completamente o seu modo de vida anterior, quando aparecem num filme de baixo nível, tornando evidente que Cristo não fez diferença na sua vida.
E os “músicos cristãos” com a sua atuação teatral, sugestiva linguagem corporal, letras muito duvidosas e música que imita a do mundo: Será isto Cristianismo? Ou será uma paródia, uma imitação ridícula?
Um criminoso declarou ter-se convertido numa grande campanha evangelística. A notícia espalhou-se imediatamente, mas ele continuou com as suas atividades criminosas, contatando com o sub-mundo do crime. Quando alguém o confrontou com essa caricatura de Cristianismo, ele disse: “Nunca me foi dito que por dizer sim a Jesus, eu tinha de voltar as costas à minha vida anterior. Não entendo, há jogadores de futebol cristãos, há “cowboys” cristãos, há políticos cristãos. Por que não pode haver um criminoso cristão?” Desde ali ele abandonou o Cristianismo.
Depois, temos as personalidades cristãs da televisão, de roupas caras, cabelos perfeitos, cobertas de jóias, pintadas como Jezabel. É desta maneira que Jesus é apresentado, tão diferente do meu amigo pobre de Nazaré.

Um negócio rendoso

Não convém, também, esquecer alguns pregadores de rádio ou de televisão, que levam a vida angariando dinheiro e vivem em casas suntuosas, viajam em automóveis e aviões caríssimos. Nunca demora muito para que um repórter exponha todo o jogo tal como é, e que o Cristianismo fique, de novo, prejudicado.
Foi noticiado que um dos pregadores favoritos da América vivia numa mansão de muitas salas, remodelada como o Palácio de Versalhes, com fabulosos jardins, estábulos e lagos. Outro comprou uma mansão de meio milhão de dólares em Los Angeles, a que a sua esposa se referiu como sendo um cantinho para fugir à rotina. Um Rolls Royce também foi adicionado à sua frota de Mercedes e Jaguars.
O mundo evangélico realmente está necessitando de uma limpeza profunda.
É constrangedor verificar o número de líderes cristãos que, ao atingirem os pináculos do poder cristão, acabaram nas manchetes dos escândalos sexuais. Alguns desapareceram com as secretárias particulares e divorciaram-se das suas esposas. Quantas mulheres cristãs, bem conceituadas, deixaram seu lar e marido para viver com outro homem? O mundo evangélico realmente está necessitando de uma limpeza profunda.
Quantas vezes Cristo é difamado por “políticos cristãos” de linguagem vulgar, compromissos duvidosos, associações obscuras? É incalculável a desonra causada ao nome de Jesus.
Talvez se devesse mencionar também os prisioneiros famosos que proclamam ter sido salvos. Através de uma forte representação dos crentes, um juiz duvidoso e relutante concorda em libertá-los. Algumas organizações cristãs aproveitam-se deles colocando-os como pregadores itinerantes (para arranjar mais fundos financeiros para a organização). Pouco tempo depois estes homens caem novamente na criminalidade e são detidos. Estudantes cristãos que colam nos exames, donas de casa que discutem com os vizinhos, pessoas que são mal-educadas e impacientes desonram a Palavra de Deus. Todo o comportamento que não reflita o caráter de Cristo fará com que os seus inimigos se manifestem e blasfemem. Todo o mau exemplo fará os descrentes dizerem: “Aquilo que tu és fala tão alto que abafa o que dizes”. Foi este tipo de conduta que levou John MacArthur a dizer: “Penso que Jesus tinha muito mais classe que muitos dos seus representantes”.
Uma vez, um soldado apresentou-se a Alexandre o Grande por ter desobedecido a ordens:
- “Como te chamas?” perguntou Alexandre.
- “Alexandre,” respondeu o soldado com acanhamento.
- “Alexandre? Ou mudas de nome ou de comportamento!” ordenou o grande chefe militar.
Aqueles, dentre nós, que defendem o título de cristão, têm obrigação de agir em conformidade com ele. “É contraditório alguém dizer que crê, e agir como se não cresse.” (H.G.Bosh).
Certa vez, em conversa com Mahatma Gandhi, E.Stanley Jones disse:
“Estou ansioso por ver o Cristianismo naturalizado na Índia, para que não seja mais uma coisa estrangeira identificada com um povo estrangeiro e um governo estrangeiro, mas para que faça parte da vida nacional da Índia e que o seu poder contribua para o crescimento e redenção deste país. O que é que sugere que façamos para que isso se concretize?” Gandhi pensativa e gravemente respondeu: “Eu sugeria... que todos vocês, cristãos... começassem a viver mais à semelhança de Jesus Cristo. Em seguida, sugeria que praticassem a vossa religião sem a adulterar ou depreciar. Por último, sugeria que dessem mais valor ao amor, porque o amor é o centro e a alma do Cristianismo”.
Atribui-se a Gandhi ter dito: “Eu teria sido um cristão se não fossem os cristãos.”
Brian Goodwin conta-nos sobre um jovem chinês que fora educado por um missionário numa escola cristã. Ele admirava o seu professor e, anos depois, ao saber que este tinha voltado à cidade, tentou entrar em contato com ele no hotel onde o professor se encontrava hospedado. No entanto, recusaram-se a anunciá-lo ao missionário e expulsaram-no do hotel. “Então é assim que os cristãos agem,” murmurou o jovem ao afastar-se. Todos os anos de cuidado e atenção que tinha recebido do seu professor missionário foram anulados por aquela grande humilhação. O nome deste jovem era Mao Tse-tung.
Bem, estas foram as más notícias. Graças a Deus que a história não acaba aqui.  (William MacDonald — 
William MacDonald (7/1/1917 – 25/12/2007) viveu na California–EUA, onde desenvolveu seu ministério. Sua ênfase era de ressaltar com clareza e objetividade os ensinamentos bíblicos para a vida cristã, tanto nas suas pregações como através de mais de oitenta livros que escreveu.

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