sábado, 17 de janeiro de 2026

Sábado, 17 de Janero,

 

O dilema da realidade

A noção segundo a qual todos os conceitos de verdade são igualmente válidos e, com isso, indiferentes, não é viável na vida diária. Em diagnósticos médicos damos valor a que sejam objetivos e não equivocados. A hora de chegada do trem indicada na planilha de horários ou está certa ou errada. Portanto, na realidade, nos atemos à noção clássica de verdade, segundo a qual a questão e a declaração a respeito devem coincidir. Se, por exemplo, o banco cometer um erro desfavorável a nós no extrato da conta, não diremos: “Bem, o banco enxerga isso dessa maneira – eu vejo diferente – cada um tem o direito de ver a questão do modo como quer”. O conceito pós-moderno de verdade não é sustentável na vida diária.

O dilema lógico

Numa expressão bem concreta, o pós-modernismo requer o “relativismo absoluto” (a única verdade é que não existe verdade objetiva) – o que consiste numa contradição em seus próprios termos. Qualquer outra (!) reivindicação objetiva de verdade é categoricamente proibida. Por isso, cabe observar que o pós-modernismo não é tão tolerante e pluralista como pretende ser e como sua sistemática nem permite que seja. Ele exige que eu reconheça por princípio que a afirmação do outro tem os mesmos direitos e é igualmente verdadeira!

O dilema ético

O pós-modernismo é incapaz de fundamentar uma orientação ética sustentável e vinculativa. A prática do pós-modernismo consolida o direito do mais forte. Se não existir alguma instância referencial (autoridade, verdade) reconhecida por todos (por governantes e governados, empregadores e empregados, pais e filhos), o poder predominará sobre o direito. Nesse caso, a elite do poder ou do dinheiro determinará a “verdade” que deve ser aceita – e não existe chance de cobrar dela reivindicações superiores, até transcendentais. A lei que vale é: o mais forte sobreviverá – e só ele.

O dilema religioso

O pós-modernismo não impõe apenas manter em aberto questões de comportamento, mas ele também não é capaz de resolver de modo fundamentado questões de sentido e existência mais abrangentes e oferecer certezas: questões referentes ao sentido último da existência humana, da origem e do futuro do homem, da existência de Deus, do sofrimento e da morte. Nesses aspectos, o pós-modernismo precisa forçosamente renunciar a qualquer resposta. Mais: precisa declarar a impossibilidade de qualquer resposta confiável e convincente a essa questão. O mais tardar, quando formos atingidos pessoalmente, isso torna-se mais do que um problema filosófico.

Com isso citamos as áreas problemáticas diretamente vinculadas à noção pós-moderna de verdade. Elas definem o dilema dessa cosmovisão.

Existe, porém, uma posição contrária ao pós-modernismo que não se perde nesses becos descritos acima: a noção cristã de verdade. A tese cristã básica diz que existe uma verdade reconhecível e definitivamente válida. A fé cristã (e o pensamento determinado por ela) baseia-se numa exigente noção geral de verdade não sujeita às variações dos tempos. Essa noção de verdade garante a dignidade de cada ser humano e ao mesmo tempo leva em conta sua culpabilidade e a degradação da sua existência. A verdade de Deus desmascara e supera nossa desgraça.

A fonte da verdade cristã

Ela está documentada por escrito na Bíblia, que por si mesma reivindica ser Palavra de Deus válida e isenta de equívocos (2Timóteo 3.16). É de conhecimento geral que, desde o Iluminismo, a autoridade objetiva da Bíblia, inclusive a confiabilidade de suas declarações históricas, vem sendo continuamente questionada e posta em dúvida (é claro que as raízes da crítica bíblica são ainda mais antigas). Isso impediu a muitos o acesso a esse livro, já que – compreensivelmente – não querem confiar sua vida a um documento de confiabilidade duvidosa. No entanto, a quantidade e qualidade dos manuscritos hebraicos e gregos já encontrados oferecem um texto excelentemente documentado, tanto para o Antigo como para o Novo Testamento. Muitas localidades e localizações citadas no Antigo e no Novo Testamento – que ao longo do tempo os críticos da Bíblia questionaram como sendo ficção – foram entrementes trazidas publicamente à luz pela arqueologia. Um outro indício da confiabilidade da Bíblia é sua admirável unidade de conteúdo. Embora esse documento tenha sido redigido ao longo de mais de 1 500 anos pela mão de aproximadamente quarenta autores muito diferentes entre si, ela oferece uma complexa metanarrativa de toda a história da humanidade. O teólogo Karl Heim teve bons motivos para enfatizar em sua retrospectiva de vida que não conseguia “imaginar um livro mais coerente do que a Bíblia”.

Quem abordar a Bíblia sem preconceitos ideológicos terá boas chances de ser convencido da sua autenticidade. Todavia, a questão-chave para a credibilidade do modelo cristão encontra-se em sua reivindicação mais ampla: na pessoa de Jesus Cristo. 

A autenticação da verdade cristã

Jesus Cristo diz de si mesmo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14.6). Isso implica nada menos que uma reivindicação plena: o destino de cada ser humano é decidido por sua posição em relação à pessoa de Jesus Cristo. Ele reivindica a verdade ilimitada e declarações definitivas. O núcleo da fé cristã é a fé na pessoa de Jesus Cristo. Por isso, quem quiser questionar a credibilidade do modelo cristão, precisa questionar acima de tudo a credibilidade de Jesus Cristo e suas reivindicações.

Existe uma data na história em que essa credibilidade foi submetida a um teste definitivo e radical (nenhum fundador de alguma religião teve alguma vez de passar por um teste como esse). Trata-se daquele dia em que Jesus foi executado diante dos portões de Jerusalém. Segundo sua própria declaração, ele morreu para tomar sobre si a pena que nós humanos merecíamos da parte de um Deus justo e santo. Ele lança sua vida no prato da balança para expiar nossa descrença e ignorância diante do nosso Criador. Ele morre em nosso lugar. Naquela ocasião, Jerusalém encarou uma questão dramática: seria legítima ou pretensa a reivindicação com a qual Jesus se apresentou? (Aqui se aplica a noção clássica de verdade: trata-se da coerência entre declarações e fatos). E então, na manhã do domingo de Páscoa, aconteceu o que ninguém esperava, principalmente seus próprios seguidores: Jesus revelou ser vencedor sobre a morte. O túmulo realmente estava vazio – não só figurada, mas efetivamente. Os indícios foram claros. A eles se acrescentam testemunhas a quem Jesus se apresentou – e cuja credibilidade é tanto maior quanto mais esperavam justamente o oposto daquilo que de fato ocorreu.

O que diz a verdade bíblica sobre o ser humano? Ela nos confronta com uma constatação tensa. Todo ser humano é criatura de Deus – e por isso seu direito à vida é intocável. Portanto, essa dignidade humana não se fundamenta no próprio homem, mas em sua relação com Deus – e justamente por isso é imperdível. Ela se aplica a cada indivíduo, não importando se jovem ou idoso, sadio ou enfermo, forte ou fraco, consciente ou inconsciente (seja “ainda” inconsciente no ventre materno, seja “não mais” consciente na UTI).

A outra face da constatação tensa desmascara o ser humano: aquele que recebeu de Deus sua inalienável dignidade emancipou-se do seu Criador. Essencialmente, ele quer levar sua vida sem Deus, de forma autodeterminada, segundo suas próprias ideias e sua própria “verdade”. Portanto, o foco natural do nosso coração tem a marca do pós-modernismo.

Assim, antes que o homem se tornasse inimigo do seu semelhante, tornou-se inimigo de Deus. Não que lutasse contra Deus de forma abertamente rebelde – geralmente essa inimizade se expressa em ignorar o Criador, recusando-lhe a reverência e dedicação que lhe competem. Assim a criatura tornou-se pecadora. Ela, porém, continua sendo criatura, mantém sua dignidade e não pode ser discriminada pelo homem. Ainda assim, sua situação é séria diante do Deus santo. Por ser santo, ele não pode tolerar o pecado. Por isso, Deus enviou seu Filho Jesus Cristo a este mundo intoxicado pelo pecado. Sua principal incumbência ficou definida desde o início: ele morreria na cruz para assumir o castigo que nós mereceríamos em razão da nossa culpa. A partir daí vale que o pecador que crer em Jesus, dirigindo-se a ele em oração na busca por ajuda e pedindo seu perdão, é absolvido por Deus, recebendo perdão e, com o perdão, a promessa da vida eterna. Jesus Cristo resumiu essa verdade em uma frase famosa: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16).

  • Wolfgang Nestvogel (Ph.D., FAU Erlangen-Nürnberg) é um pastor luterano. Também serviu como professor em diversos seminários e autor de livros. Casado com Patricia, tem dois filhos.

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